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Mostrando postagens de outubro, 2026

A casa depois deles

                                                A casa depois deles                                Para minha filha Mõnica, e para todas as mães, cuja solidão                                 pesa no coração. Quando os filhos foram embora, a casa não ficou vazia de uma só vez. Primeiro, foi o quarto de Ana. Ela ainda deixou algumas roupas no armário, dois livros sobre a escrivaninha e uma caixa de fotografias, que prometera buscar no mês seguinte.                                                                           ...

O CASSINO DAS MADRUGADAS

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                              O Cassino das Madrugadas Para Tereza, a mãe que carrega as dores do filho. Rafael descobriu o jogo numa noite silenciosa de domingo. Não em um cassino iluminado, nem entre homens de terno e fumaça de charutos caros, mas na tela fria do celular, enquanto a cidade dormia.  O anúncio prometia pouco: alguns minutos de diversão, a chance de transformar moedas em fortuna.  Ele clicou sem pensar. No começo, era apenas distração. Depois do trabalho exaustivo no escritório, o jogo parecia aliviar o peso invisível, que carregava desde a adolescência — uma sensação contínua de insuficiência.                              Quando ganhava, mesmo valores pequenos, sentia algo raro: controle.        O mundo, que sempre lhe parecera hostil e indiferente, finalmente respondia aos seus gestos. A prim...

MADALENA, UMA MULHER SIMPLES

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                             MADALENA, UMA MULHER SIMPLES Madalena nasceu de sete meses, e não sabia ao certo quantos anos tinha. Quarenta e poucos, talvez. Aprendeu a medir o tempo pelas estações das chuvas, pelas festas de junho, pelas rugas discretas surgidas ao redor dos olhos, quando se olhava no espelho partido, da pequena casa onde morava.  Não foi registrada ao nascer. A mãe, mulher simples e cansada da vida, jamais entendeu a importância daqueles papéis, que davam às pessoas um lugar oficial no mundo.  Assim, Madalena cresceu existindo apenas para os vizinhos, para a Paróquia do bairro e para os poucos que sabiam seu nome. O pai desaparecera cedo, numa manhã qualquer, levando consigo apenas duas camisas e um silêncio definitivo.  Madalena tinha seis anos. Nunca mais o viu. Da figura dele, restou apenas a lembrança de um homem magro, de chinelos gastos, assobiando modinhas antigas no quinta...

UM CONFLITO DE FAMÍLIA

                                      UM CONFLITO DE FAMÍLIA   A casa da família Moraes era antiga, silenciosa e carregada de memórias.  As paredes guardavam fotografias amareladas, aniversários felizes e retratos de uma união que, aos poucos, havia se transformado em ruína.  Os irmãos Henrique e Daniel cresceram dividindo o mesmo quarto, os mesmos brinquedos e os mesmos medos infantis.  Na juventude, porém, algo começou a se quebrar entre eles. Pequenas disputas tornaram-se discussões violentas. O que antes era implicância comum entre irmãos, ganhou um tom sombrio, quase irreversível.  Ninguém na família sabia explicar exatamente, quando o afeto se transformara em ódio.  A mãe insistia em dizer que era apenas “fase”. O pai, homem rígido e silencioso, acreditava que os filhos resolveriam tudo “como homens”.  Mas os anos passaram, e a distância entre os dois a...
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                           UM MENINO ACIMA DA MÉDIA E O HOMEM FORA DO LUGAR Os primeiros sinais apareceram cedo, quando Heleno ainda mal alcançava a borda da carteira da escola. Tinha apenas nove anos, mas respondia às perguntas do professor com uma segurança desconcertante, como se as respostas já existissem prontas em algum lugar secreto da sua mente. Na pequena escola do bairro, a professora Marta foi a primeira a perceber que havia algo incomum naquele menino magro, silencioso e de olhos sempre atentos. Certa manhã, durante uma aula de ciências, ela decidiu brincar com a turma: — Se a Terra gira tão rápido, por que nós não sentimos o movimento? As crianças deram respostas confusas, algumas engraçadas. Um menino disse que era porque “o chão segurava a gente”. Outra falou que Deus mantinha tudo parado. Heleno levantou a mão lentamente. — Porque nós giramos junto com ela, professora. O movimento constante deixa de se...