O ÚLTIMO REGIME
O ÚLTIMO REGIME
Todas as quintas-feiras, exatamente às cinco da tarde, Roberval Silva Ferreira e Gabriel de Sá Osmundi ocupavam o mesmo banco da Praça das Acácias.
Era um ritual antigo.
Compravam café na pequena padaria da esquina, alimentavam os pombos com migalhas de pão e conversavam até que as luzes da praça fossem acesas.
Quem os observasse de longe, imaginaria dois aposentados falando sobre futebol, ou sobre o que sobrava da pequena pensão. Na verdade, discutiam o destino da humanidade.
Naquela tarde, Gabriel fechou lentamente um livro sobre história política.
— Sabe qual é o maior fracasso da civilização?
Roberval sorriu.
— Você vai dizer que é a democracia.
— Não. Vou dizer que é acreditar que algum regime político, seja capaz de transformar seres humanos em criaturas justas.
Roberval acomodou o óculos.
— Curioso. Eu pensava exatamente o contrário.
— Então me explique.
— Todos os regimes fracassaram, porque todos confiaram demais em quem exerce o poder.
Gabriel balançou a cabeça.
— Aí está o seu velho anarquismo.
— Não é anarquismo romântico. É sociologia.
O Silêncio enfeitava a praça, assim como as velhas árvores.
As folhas das árvores estremeceram sob um vento leve.
Gabriel retomou a conversa.
— Veja a Antiguidade. Monarquias absolutas. Impérios. Reis considerados deuses. Governavam, dizendo representar a vontade divina.
Resultado? Escravidão. Guerras permanentes. Miséria. Genocídios.
Roberval respondeu quase imediatamente.
— Depois vieram as repúblicas. Também prometeram igualdade, liberdade... Criaram senadores, assembleias, constituições... Mas continuaram escravizando povos inteiros. Mudaram apenas os nomes das elites dominantes, do momento.
Gabriel riu.
— Exatamente. Mudaram os donos do poder. Nunca eliminaram o poder.
Roberval tomou um gole de café.
— Depois vieram os impérios modernos. Colonialismo. Mercantilismo Exploração mundial. Milhões morreram em nome da riqueza.
Gabriel completou:
— Em seguida apareceu o liberalismo. Prometeu liberdade. Produziu riqueza sem precedentes. Mas também criou bairros, onde alguns moravam em palácios, enquanto milhares sobreviviam em cortiços.
— Foi quando Marx apareceu...
— Sim. Prometendo igualdade.
Roberval olhou para o céu.
— E então vieram as revoluções.
Gabriel suspirou.
— Rússia. China. Camboja. Coreia. Cuba. Todos diziam lutar pelo povo. Todos produziram novas elites. Algumas muito mais violentas, do que as antigas.
Roberval permaneceu alguns segundos calado.
— O curioso é que até as ditaduras militares, sempre diziam defender a liberdade.
Gabriel respondeu:
— Todo autoritarismo nasce, dizendo que será provisório. Quase nunca é. O poder tem o sabor da permanência...
O silêncio voltou.
Duas crianças atravessavam a praça, brincando de correr.
Roberval observou.
— E as democracias?
Gabriel sorriu discretamente.
— São excelentes, para permitir alternância de grupos no poder. Não necessariamente para distribuir o poder. Embora falem em nome do povo, sabemos pela História, que é mera retórica!
— Você realmente acredita na monarquia?
— Não, na monarquia medieval. Nem no direito divino. Penso numa instituição permanente, acima das disputas eleitorais. Uma instituição que simbolize continuidade... Que pense em décadas. Não em quatro anos.
Roberval riu.
— Um rei filósofo?
— Talvez.
Platão já imaginava algo parecido.
— E se o rei for um idiota?
Gabriel respondeu sem hesitar.
— O povo também elege idiotas.
Os dois riram. Era uma velha piada entre eles.
Depois Roberval falou lentamente.
— Eu continuo acreditando, que todo poder concentra privilégios. Quanto maior o Estado, maior a tentação. Quanto maior a autoridade, maior o risco. Sou anarquista, porque desconfio profundamente de qualquer instituição, que possa mandar em milhões de pessoas.
Gabriel olhou em direção ao Hospital Municipal, visível ao longe.
— Passei quarenta anos trabalhando nas periferias. Vi comunidades, onde não existia Estado. Nem polícia. Nem escola. Nem posto de saúde. Nem justiça. O vazio do poder não produziu liberdade. Produziu chefes locais. Traficantes. Milícias. As falanges do crime organizado... O poder nunca desaparece. Apenas muda de mãos.
Roberval permaneceu em silêncio.
Aquela observação o incomodava. Porque era verdadeira. Depois de alguns minutos perguntou:
— Então qual seria o melhor regime?
Gabriel respondeu, olhando os últimos raios do sol.
— Ainda não foi inventado.
— Nem será.
— Talvez.
— Porque o problema nunca foi o regime.
Gabriel virou-se para ele.
— Concordo. Foi sempre o ser humano.
As luzes da praça acenderam. Os dois permaneceram observando o movimento das pessoas.
Um vendedor ambulante anunciava pipocas. Um casal de adolescentes discutia. Uma senhora distribuía comida, aos cães abandonados.
Roberval comentou em voz baixa:
— Já percebeu? Passamos cinco mil anos, tentando organizar governos. Pouco tempo tentando organizar consciências. Recriar o ser humano...
Gabriel sorriu.
— Talvez porque seja mais fácil escrever constituições, do que educar caráteres.
Os dois levantaram-se. Caminharam lentamente até a saída da praça. Antes de se despedirem, Roberval fez a última pergunta.
— Você acredita que algum dia, encontraremos o sistema político perfeito?
Gabriel respondeu sem parar de caminhar.
— Não. Mas talvez encontremos uma sociedade, suficientemente madura, para que qualquer sistema funcione razoavelmente.
Roberval permaneceu imóvel, olhando a praça quase vazia. Pensava em Nicolau Maquiavel, que dizia que o poder é uma disputa implacável por conquista e manutenção, e não um exercício de busca por utopias ou bondade abstrata. Pensava em Maquiavel, na crueza com que desmontou as ilusões das certezas, que sempre alimentaram a arrogância dos governantes.
Naquele instante, compreendeu uma ideia que jamais admitiria em voz alta.
Talvez todas as revoluções da História, tivessem tentado mudar governos, quando a verdadeira revolução, sempre dependera de algo muito mais difícil: mudar a natureza moral do próprio homem. E essa, concluiu silenciosamente, continuava sendo a única revolução, que nenhuma ideologia havia previsto. Salvo o Cristianimso, que não é uma ideologia, mas uma proposta ética...
Mario Moura
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